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Os Triglicerídios de Cadeia Média (TCMs) são lipídios 100% saturados constituídos por três ácidos graxos de cadeia média (AGCMs) ligados a uma molécula de glicerol. No entanto, o fato de os AGCMs apresentarem apenas de seis a doze átomos de carbono ao longo de suas cadeias faz com que sejam digeridos, transportados e utilizados como fonte de energia de forma diferenciada no organismo, passando rapidamente pelo estômago e sendo posteriormente digeridos até ácidos graxos de cadeia curta (AGCCs), os quais são absorvidos pela mucosa intestinal de forma tão rápida quanto a glicose.

Quando comparados aos AGCLs, os AGCMs apresentam maior solubilidade em água e requerem menor ação da enzima lipase pancreática e dos sais biliares para sua digestão. Uma vez no interior das células da mucosa intestinal, não necessitam ser ressintetizados a triglicerídios e incorporados aos quilomícrons (classe de lipoproteínas que conduz triglicerídios e colesterol exógenos do intestino delgado aos tecidos após as refeições) para transporte pela corrente sanguínea, como ocorre com os AGCLs.

Os AGCMs entram na veia porta e se ligam à albumina para serem levados ao fígado de maneira tão rápida quanto a glicose. Atingem a circulação sistêmica e se tornam disponíveis para o metabolismo 250 vezes mais rápido do que os AGCLs. Os AGCMs não são armazenados no tecido adiposo e são instantaneamente oxidados pelas células para prover energia, sobretudo no fígado. Uma vez no interior das células musculares, não dependem da carnitina para serem transportados para as mitocôndrias. Por fim, são metabolizados de forma veloz, equiparando-se ao processo de queima da glicose, mas fornecendo aproximadamente oito kcal para cada grama, ou seja, o dobro fornecido pela glicose.

A observação dessas características peculiares dos TCMs e dos AGCMs conduziu diversos pesquisadores a propor que os TCMs poderiam vir a ser uma fonte importante de energia durante a atividade física, em especial durante eventos de ultra-endurance. Além disso, a utilização desse substrato poderia contribuir na diminuição da taxa de utilização do glicogênio durante a atividade física, poupando-o. Muitos estudos foram desenvolvidos avaliando os efeitos dos TCMs sobre o desempenho, redução das taxas de uso de glicogênio muscular e utilização como substrato energético durante o exercício.

Um dos primeiros estudos desenvolvidos com TCMs, relacionados à atividade física, foi conduzido por Ivy et al3. Os autores submeteram dez indivíduos bem treinados, do sexo masculino, a uma hora de atividade a 70% do VO2máx., sob a seguinte conduta dietética:

1) Grupo Controle: indivíduos que se exercitaram após uma noite de jejum, ou seja, não receberam suplementação e nem algum tipo de refeição pré-teste;
2) Grupo TCM + refeição: 30g de TCMs misturados a cereais e 240ml de leite desnatado oferecidos uma hora antes do exercício;
3) Grupo TCL + refeição: 30g de TCLs misturados a cereais e 240ml de leite desnatado (609 kcal) oferecidos uma hora antes do exercício;
4) Grupo Refeição: apenas cereais e 240ml de leite desnatado (354 kcal) oferecidos uma hora antes do exercício.

Como resultado, não foram observadas diferenças nas taxas de sensação subjetiva ao esforço. Comparado aos demais procedimentos experimentais, a adição de TCMs não aumentou, de forma significativa, os níveis plasmáticos de ácidos graxos ou a taxa de oxidação de lipídios durante a atividade. Com base nessas observações, os autores concluíram que a combinação oferecida de carboidratos e TCMs não foi uma forma efetiva de fornecimento de energia para a melhora do desempenho, uma vez que todos os grupos, com exceção do “Controle”, forneceram a mesma quantidade de lipídios e carboidratos. Os autores relataram ainda que em etapas experimentais do estudo a ingestão de 50g a 60 g de TCMs causou desconfortos abdominais em 100% dos indivíduos, enquanto a quantidade de 30g causou esses sintomas em apenas 10% deles.

Decombaz et al.1 encontraram resultados semelhantes. Eles ofereceram a doze indivíduos, uma hora antes do exercício, 25g de TCMs ou 50g de carboidratos. Os indivíduos permaneceram em atividade por uma hora, a 60% do VO2máx. Os resultados demonstraram que os TCMs não contribuíram para a redução das taxas de utilização de glicogênio muscular durante o exercício, no entanto, compreenderam 10% do gasto energético total da atividade. Os autores concluíram que os TCMs parecem não oferecer vantagens sobre os carboidratos como substrato energético e principalmente para a melhora do desempenho.

Outros estudos foram desenvolvidos investigando os efeitos da ação de TCMs durante a atividade física misturados a bebidas. Massicotte et al.7 ofereceram água com TCMs (25g) ou glicose (57g) durante o exercício a seis indivíduos em atividade por duas horas, a 65% do VO2máx. Foi observado que os TCMs e os carboidratos foram oxidados à energia em taxas similares, porém representaram apenas 7% e 8,5%, respectivamente, do total de energia produzido com o esforço. Não foi verificado, contudo, redução no uso de carboidratos endógenos para ambos os substratos. Esses resultados foram confirmados por outros estudiosos5,6 que observaram, ainda, que a administração de TCMs não contribuiu para a diminuição da taxa de utilização do glicogênio muscular durante a atividade, mesmo quando esta reserva energética já se encontrava reduzida antes do exercício. A possibilidade de se administrar maior quantidade de TCMs nesses estudos foi inviável por causa dos desconfortos gastrintestinais gerados pela substância.

Os efeitos da utilização de TCMs sobre o desempenho foram estudados por Van Zyl et al8. Os autores submeteram seis ciclistas de endurance, treinados, a três ocasiões distintas de exercício, por duas horas a 60% do VO2máx., com posterior teste de tempo para uma distância de 40 km. Os atletas em estudo foram submetidos a três procedimentos experimentais em ordem aleatória:

1) solução contendo 10% de glicose;
2) solução contendo 4,3% de TCMs;
3) solução contendo 10% de glicose + 4,3% TCMs.

Os resultados demonstraram que a substituição da glicose por TCMs tornou os tempos de teste 5,3 minutos mais lento. No entanto, a combinação de TCMs e glicose na mesma bebida melhorou os tempos em 1,7 minutos. As concentrações de glicogênio muscular não foram avaliadas.

Jeukendrup et al.5 confirmaram tais resultados, observando que a administração de duas soluções, de mesmo valor calórico, contendo apenas glicose ou TCMs não melhorou o desempenho de ciclistas treinados, quando comparadas ao fornecimento de uma solução placebo à base de água, aromatizantes e corantes. No entanto, a administração de TCMs isoladamente prejudicou o desempenho em 18% deles. Os autores observaram que os TCMs não afetaram a utilização de carboidratos e proteínas durante o exercício, como também não exerceram efeitos sobre as taxas de mobilização de glicogênio e demais carboidratos endógenos, ressaltando ainda que a quantidade de TCM utilizada no estudo (85g) resultou em desconfortos abdominais, como ocorrência de vômitos em dois indivíduos e episódios de diarréia em três deles. Arrotos e sensação de estômago cheio foram relatados em todos os tratamentos dietéticos, com exceção do placebo. Cólica gastrintestinal foi a queixa mais comum relatada.

Em 2005, objetivando determinar se a ingestão combinada de TCMs com carboidrato, alteraria o substrato metabolizado por ciclistas de ultra-endurance, Goedecke et al.2 submeteram oito atletas a um dos seguintes protocolos de suplementação em dois momentos distintos, com, no mínimo, sete dias de intervalo:

a) 75g de carboidratos, uma hora antes do teste (270 min de ciclismo a 50% da sua potência máxima), e, durante, com 200 ml de solução contendo 10% de carboidratos a cada 20 min;
b) 32g de TCM, uma hora antes de realizarem o mesmo teste, e, durante, com 200 ml de solução contendo 4,3% de TCM + 10% de carboidratos a cada 20 min.

Os pesquisadores concluíram que a suplementação com TCM não alterou o substrato metabolizado durante o exercício, além de ter comprometido significativamente a performance dos ciclistas.

Em síntese, nos estudos desenvolvidos com a administração de TCMs em indivíduos fisicamente ativos e atletas observa-se que, apesar desse substrato colaborar para a disponibilidade total de energia durante a atividade, sua contribuição para o gasto energético total parece ser muito pequena – 7% a 8%. Além disso, os resultados dos estudos levam a crer que o uso de TCMs não poupa glicogênio, como também não diminui a utilização dos demais carboidratos endógenos e exógenos. A taxa de oxidação de lipídios permanece inalterada quando os TCMs são administrados, antes ou durante o exercício, mesmo quando as reservas de glicogênio muscular já se encontram comprometidas no início da atividade. Isso sugere que os AGCMs estão competindo com os AGCLs para serem oxidados durante o exercício. Dessa forma, os TCMs podem estar poupando as reservas corporais de lipídios,3 o que contribui como justificativa para o fato de o glicogênio muscular não ser poupado quando os TCMs são administrados. Apesar de os TCMs passarem rapidamente pelo estômago e os AGCMs serem logo digeridos, transportados e empregados pelo organismo como substrato energético, o uso de TCMs como fonte de energia durante a atividade física parece ser limitado por causa dos efeitos gastrintestinais adversos.

O consenso atual na literatura sobre o emprego de TCMs como recurso ergogênico durante a atividade física é de que esse substrato não exerce efeitos poupadores de glicogênio significativos e, portanto, não pode ser considerado responsável pela melhora do desempenho em atividades de endurance, apesar de ser excelente fonte de lipídios para compor uma dieta normal devido a todas as vantagens de suas características metabólicas já descritas.

Fonte:

http://www.proximus.com.br/news/node/115


Referências:
1. DECOMBAZ, J. et al. “Energy metabolism of medium-chain triglycerides versus carbohydrates during exercise”. European Journal of Applied Physiology and Occupational Physiology, v.52, n.1, 1983, p.9-14.
2. GOEDECKE, J.H.; CLARK, V.R.; NOAKES, T.D. et al. The Effects of Medium-Chaim Triacylglycerol and Carbohydrate Ingestion on Ultra-endurance Exercise Performance. International Journal of Sports Nutrition and Exercise Metabolism, v. 14, p. 15-27, 2005.
3. IVY, J.L. et al. Contribution of medium and long chain triglyceride intake to energy metabolism during prolonged exercise”.International Journal of Sports Medicine, v.1, n.1, 1980, p.15-20.
4. JEUKENDRUP, A.E. et al. Metabolic availability of medium-chain triglycerides coingested with carbohydrates during prolonged exercise. Journal of Applied Physiology, v.79, n.3, 1995, p.756-62.
5. JEUKENDRUP, A.E. et al. Effect of medium-chain triacylglycerol and carbohydrate ingestion during exercise on substrate utilization and subsequent cycling performance. American Journal of Clinical Nutrition, v.67, n.3, 1998, p.397-404.
6. JEUKENDRUP, A.E.; SARIS, W.H. & WAGENMAKERS, A.J. Fat metabolism during exercise: a review – Part II: regulation of metabolism and effects of training. International Journal of Sports Medicine, v.19, n.5, 1998, p.293-302.
7. MASSICOTTE, D. et al. Oxidation of exogenous medium-chain free fatty acids during prolonged exercise: comparison with glucose. Journal of Applied Physiology, v.73, n.4, 1992, p.1334-9.
8. VAN ZYL, C.G. et al. Effects of medium-chain triglyceride ingestion on fuel metabolism and cycling performance. Journal of Applied Physiology, v.80, n.6, 1996, p 2217-25.

Rodrigo Ramos
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